19/11/2008
Das Cartas de São Roque González, presbítero (Séc.XVII)
Espero que esta cruz seja o princípio
para se levantarem muitas outras
Voltando pouco depois para lá encontrei um local onde podia ficar: uma pequena choupana
perto do rio; e, passado algum tempo, ofereceram-me uma palhoça maior. Dois meses mais
tarde, o Padre Reitor enviou o Padre Diogo de Boroa. Este chegou finalmente na segunda-feira
de Pentecostes. Com muita consolação considerávamos como o amor de Deus nos juntava
naquelas terras tão longínquas. Dividimos entre nós o limitado espaço da nossa morada, com
um tabique feito de canas. Ao lado tínhamos uma capela, pouco maior que o próprio altar em
que celebrávamos a Missa. Por eficácia deste supremo e divino sacrifício, em que Cristo se
ofereceu ao Pai na Cruz, começou ele a triunfar ali, pois os demônios que antes costumavam
aparecer a estes índios não se atreveram a aparecer mais, como testemunhou algum deles.
Resolvemos continuar na mesma palhoça, embora tudo nos faltasse. O frio era tanto que nos
custava adormecer. O alimento também não era melhor: milho ou farinha de mandioca, que é a
comida dos índios; e porque começamos a buscar pelos bosques umas ervas de que se
alimentam os papagaios, com este apelido nos chamavam.
Prosseguindo as coisas deste modo, e temendo os demônios que, se a Companhia de Jesus
entrasse nestas regiões, eles perderiam em breve o que por tanto tempo tinham possuído,
começaram a espalhar por todo o Paraná que nós éramos espiões e falsos sacerdotes, e que
trazíamos a morte em nossos livros e imagens. Divulgou-se isto a tal ponto que, estando o Padre
Boroa a explicar aos índios os mistérios da nossa fé, eles temiam aproximar-se das sagradas
imagens, com receio de algum contágio mortífero. Mas estas idéias foram-se desfazendo pouco
a pouco, sobretudo quando viram com os próprios olhos que os nossos eram para eles como
verdadeiros pais, dando-lhes de bom grado quanto tinham em casa e assistindo-os nos seus
trabalhos e enfermidades, de dia e de noite, auxiliando-os não só em proveito das suas almas, o
que é certamente mais importante, mas também dos seus corpos.
E assim, quando vimos consolidar-se o amor dos índios para conosco, pensamos em construir
uma igreja, que, embora pequena e modesta e coberta com palha, apareceu a esta gente
miserável como um palácio real, e ficam atônitos quando levantam os olhos para o teto. Ambos
tivemos de trabalhar com barro para fazer o reboco e para ensinar os indígenas a fazer tijolos.
Deste modo conseguimos ter a igreja pronta para o dia de Santo Inácio do ano passado de 1615.
Neste dia celebramos lá a primeira missa e renovamos os nossos votos. Houve ainda outros
ritos festivos, quanto era possível segundo a pobreza do lugar. Também quisemos organizar
umas danças, mas estes rapazes são tão rudes que não conseguiram aprendê-las. Levantamos
depois uma torre de madeira e pusemos nela um sino que a todos encheu de admiração, pois
nunca tinham visto nem ouvido semelhante coisa. Também foi ocasião de grande devoção uma
cruz que os próprios indígenas levantaram: tendo-lhes nós explicado por que razão os cristãos
adoram a cruz, eles se ajoelharam conosco para adorá-la. Desconhecida até agora nestas terras,
espero em nosso Senhor que esta cruz seja o princípio para se levantarem muitas outras.
Segunda Leitura do Próprio dos Santos da Liturgia das Horas |