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Palavra do Pastor

 

21º Domingo do Tempo Comum – 27.08.2006

“Entre vós há alguns que não crêem” (Jo 6,64)

 

+ João Braz de Aviz
Arcebispo Metropolitano de Brasília

Diante do realismo e da clareza com que Jesus comunicou o grande mistério da Eucaristia, os discípulos murmuraram e se escandalizaram. “A partir de então, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com Ele” (Jo 6,66). Daí nasce a constatação do Senhor: “Entre vós há alguns que não crêem” (Jo 6,64). Jesus mesmo recorda o que já havia dito antes: “Ninguém pode vir a mim, se isto não lhe for concedido pelo Pai” (Jo 6,65). Compreendemos, pois, que a fé é uma experiência profunda gerada pela iniciativa do Pai que nos atrai para si. De outro lado o ato de fé exige uma abertura sincera do coração da mulher e do homem, para reconhecerem os sinais apresentados pelo Senhor.

Esta atitude profunda e cheia de sabedoria está presente na resposta de Pedro ao desafio que Jesus impôs aos doze: “Não quereis também vós partir?” (Jo 6,67). O Apóstolo Pedro, cheio de fé, movido pelo Pai, aberto aos sinais claros da ação salvífica de Jesus, respondeu-lhe: “Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus” (Jo 6,68s).

O Livro de Josué nos situa hoje em um momento solene e grave da história do povo de Israel. Moisés, o grande condutor, que, em nome de Deus, retirara o povo da escravidão do Egito e o conduzira pelo deserto, havia morrido. Josué tinha agora a missão de introduzir o povo de Israel na terra prometida por Deus. O que mais lhe importava era reafirmar sua decisão pelo Senhor, levando todo o povo a fazer o mesmo. Daí, então, sua declaração: “Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: se aos deuses a quem vossos pais serviram na Mesopotâmia, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Quanto a mim e à minha família, nós serviremos ao Senhor” (Js 24,15).  Então os anciãos, os chefes, os juízes, os magistrados e todas as tribos de Israel, reunidos em Siquém, recordando os grandes prodígios realizados pelo Senhor em sua história passada, decidiram, junto com Josué e sua família, servir ao Senhor (cf Js 24,16ss).

Os imensos e contínuos benefícios que o Senhor realiza em nossa vida através de curas, de libertação e de tantos favores, são destinados a fazer crescer em nós a confiança em seu imenso e constante amor. O louvor que então brota de nossos lábios e de nossa vida precisa desabrochar no compromisso concreto de discípulos que se esmeram em procurar pôr em prática suas palavras. Desse modo o ato de fé torna-se uma resposta verdadeira à manifestação do Senhor.

Em nossa experiência de fé não paremos, pois, somente nos benefícios que recebemos da bondade e da misericórdia de Deus. Busquemos um compromisso sério e límpido com sua palavra, prontos a nos convertermos em seus discípulos.