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12/05/2009

Brasília celebra Corpus Christi

Do Correio Braziliense

Com público numeroso, Esplanada dos Ministérios foi palco da tradicional comemoração católica que destaca a Eucaristia, conceito equivalente ao próprio sangue e corpo de Cristo, para os fiéis

Fotos: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press
Religiosos lideram a procissão noturna, nos arredores da Catedral.
 
O mistério da fé católica atraiu, mais uma vez, uma multidão à Esplanada dos Ministérios. Em um fim de tarde agradável, com direito a um belo pôr do sol, crianças, jovens e famílias inteiras se reuniram para celebrar a festa de Corpus Christi. Segundo a Polícia Militar, o público foi de 25 mil pessoas. Já a organização calculou 75 mil fiéis no gramado em frente à Catedral Metropolitana de Brasília. Após a missa, cânticos e orações embalaram uma procissão com bênçãos para os doentes, governantes e famílias. A celebração terminou com uma queima de fogos que durou cerca de 10 minutos.

Para os católicos, a ceia protagonizada por Jesus antes de ser crucificado se repete de maneira concreta a cada missa. Pão e vinho são transformados, pela fé, em corpo e sangue de Cristo. É esse mistério que a Igreja festeja no Corpus Christi. “É uma realidade admirável. Jesus quis ficar entre nós, quis nos deixar a certeza do amor de um Deus concreto”, disse o arcebispo de Brasília, dom João Braz de Aviz, durante o sermão da missa iniciada às 17h. Cerca de 120 padres participaram do cortejo de entrada, passando pelo tradicional tapete preparado por jovens pela manhã.

Gente de todo o Distrito Federal começou a se concentrar na Esplanada no início da tarde. Quando a cerimônia começou, silêncio absoluto. “Ave Maria, a paz que a gente sente aqui é boa demais! Só de pisar aqui, você percebe”, comentou a aposentada Maria Salete da Silva, 73, que foi à missa no ônibus da igreja da Mãe da Divina Providência, do P Sul, em Ceilândia. “O amor a Deus foi que me trouxe. Primeiro, Ele. Depois, vem o resto. Na minha vida é assim”, completou a dona de casa Maria das Dores, 54. Aquela missa, para ela, era a segunda do dia.

No momento da comunhão, ápice da cerimônia, já era noite. Vinte mil hóstias sagradas foram distribuídas entre a multidão. “A Eucaristia é Deus vivo”, definia o comerciante José Valdo, 58 anos, bem em frente a um dos dois telões instalados nas laterais do palco de 20m de largura e 25 de profundidade. A camareira Maria Helena Sousa, 44, estava mais afastada da multidão. “Aqui, eu escuto melhor”, justificou, acompanhada pelo filho de 10 anos. “Trouxe ele porque, se a Igreja não ensinar, quem vai?”, emendou. “Eu gosto da Igreja”, disse logo o garoto Cristhian.

“Ajudando Jesus”
Pela primeira vez, crianças ajudaram a preparar o tradicional tapete de Corpus Christi, com 22 quadros. Setenta meninos e meninas entre cinco e 14 anos saíram de Sobradinho antes das 8h. Douglas Freire, de 10, segurava uma sacola com salgadinho e pitchula. “É pra quando vier a fome. Vamos ficar até o tapete estar pronto”, contou ele. A colega Catarina Cristina Oliveira, 10, explicou o desenho: “É o corpo de Jesus que a gente vai receber em novembro na Primeira Comunhão”. E o sol forte? “A gente nem liga. Estamos aqui, ajudando Jesus”, completou Carolina Bernardes, também de 10 anos.

A catequista Geniane Ribeiro, 45, tentava controlar os ânimos da criançada, encantada com tanta serragem colorida, palha de arroz, areia, sal e borra de café. “O bom é que aqui eles aprendem, na prática, o serviço e a história da Igreja”, comentou ela. De cima do palco onde foi montado o altar, o vigário-geral da Arquidiocese de Brasília, monsenhor Marcony Vinícius Ferreira, encantava-se com a presença dos mais de 500 jovens de 18 movimentos ligados à Igreja. “Essa é uma face bonita da juventude”, refletia o monsenhor, em seu 24º Corpus Christi como padre.

Dezessete jovens do Núcleo Rural Lago Oeste chegaram à Esplanada pouco depois das 6h. Era a estreia do grupo coordenado por Nelcileide Santos, 21, na confecção do tapete. “Ficou uma beleza!”, avaliou ela, ao ver o trabalho concluído. Mas o mais importante, destacou a jovem, foi a interação com outros grupos do Distrito Federal. “Participar da Igreja é bom, é isso que vale a pena perceber”, frisou Nelcileide. Ela e os amigos precisaram pedir ajuda à paróquia para custear o transporte de ida e volta, feito em ônibus convencional.

Arte e fé
Perto das 11h, o quadro dos jovens do Movimento Escalada estava quase pronto. Com mãos e pés sujos, Fabrício Almeida, 15, e Flora Mère, 17, davam os últimos retoques. “É muito bom fazer algo pra Deus. Eu podia estar dormindo agora, mas estou aqui”, afirmou Fabrício, sob o olhar atento da mãe, orgulhosa com a participação dele na festa. À noite, após a procissão, o tapete que se estendeu por 110m do gramado em frente à Catedral foi desmontado. “Tem gente que pensa que isso aqui é em vão, mas não é. O nosso trabalho é para Deus”, destacava Flora, pela manhã.

Quase todos os desenhos faziam referência à Eucaristia. Havia cálices, hóstias, pombas (representando o Espírito Santo) e, claro, feições do próprio Cristo. Um dos quadros do tapete foi elaborado pela estudante de publicidade Polyana Bandeira, 20. “Aqui, é Jesus oferecendo a Eucaristia para nós”, detalhou a jovem, que contou com a ajuda do pai para finalizar os traços. “Adoro arte. É muito bom associar o que eu gosto de fazer com a minha fé”, ressaltou Polyana, do grupo do Acampamento Nossa Senhora Aparecida.

Enquanto a maioria punha a mão na serragem, os amigos violeiros Breno Gomes e Davi Habib, ambos de 20 anos, tocavam e cantavam para garantir o clima de festa. Reggae, axé, pop, forró — as músicas religiosas eram entoadas em todos os estilos. “Cada um com seus dons. Eles com a arte deles e eu com a minha”, disse Davi. “Ano passado, eu ajudei a fazer o tapete. Agora, eu tô só de boa”, emendou Breno. Quando chegou a hora do almoço, algumas rodas se formaram no gramado da Esplanada. Antes de ir embora, muitos jovens se deram as mãos e, em oração, agradeceram a manhã.


2010, o ano eucarístico

A festa marcou a abertura do Ano Eucarístico, em preparação ao 16º Congresso Eucarístico Nacional, que será realizado em Brasília no em maio do ano que vem. São esperadas mais de 300 mil pessoas. A programação prevê missas, oração, shows e palestras na Esplanada dos Ministérios, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, no Ginásio Nilson Nelson e no Estádio Mané Garrincha.

O congresso fará parte das atividades do aniversário de 50 anos de Brasília. A Arquidiocese e o GDF já enviaram um convite ao papa Bento XVI. O Vaticano ainda não deu resposta. “Quem sabe o santo padre não nos dá essa grande alegria? De qualquer forma, teremos um representante dele aqui conosco”, comentou o vigário-geral da Arquidiocese de Brasília, monsenhor Marcony Vinícius Ferreira.

para saber mais
Origem na Bélgica
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
pela manhã, crianças de diversas localidades ajudaram na confecção do tapete com motivos religiosos
 

A festa de Corpus Christi surgiu no século 13, na Bélgica, por iniciativa de uma freira chamada Juliana de Mont Cornillon. Na primeira quinta-feira após o domingo da Santíssima Trindade, a Igreja celebra a Eucaristia, que, para os católicos, é o próprio corpo e sangue de Cristo. A instituição desse sacramento já é lembrada na Quinta-feira Santa, mas, como a data está dentro do contexto da Paixão e Morte de Jesus, a Igreja volta a celebrar esse momento em um dia próprio. Em 1247, houve a primeira procissão pelas ruas da cidade de Liège. A celebração passou a ser anual em todo o mundo no século 14, na época do papa Clemente V. A montagem do tapete é uma tradição que teve origem na Europa medieval, onde as ruas e as fachadas das casas eram enfeitadas para a passagem de Jesus Eucarístico. Em Brasília, a data começou a ser lembrada em 1961, em cortejos que seguiam da igreja Santo Antônio até a de Nossa Senhora de Fátima, ambas na Asa Sul. Atualmente, o Corpus Christi é festejado na Esplanada dos Ministérios.