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05/03/2010

As insídias do diabo

 

 

Todos os anos, no início do período da Quaresma, a Liturgia volta a advertir-nos sobre as tentações e as insídias realizadas pelo diabo, o príncipe deste mundo, do mal e da mentira. Por ser uma boa mãe, a Igreja nos ensina que o diabo é “a serpente astuta e invejosa que traz a morte ao mundo”. (Sab 2,24).  Ele não é, como muitos pensam, um mero fruto do pensamento medieval ou uma criatura que existe apenas nas mentes daqueles que professam a fé. O diabo é “um ser vivo, espiritual, pervertido e pervertedor. Terrível realidade. Misteriosa e amedrontadora. Rompe com o contexto bíblico e eclesiástico quem se recusa a reconhecê-la como existente”. (Papa Paulo VI, “Audiência em 15 de novembro de 1972”). 

As Sagradas Escrituras, em diversos livros, desde o Gênesis até o Apocalipse,  demonstram a existência do diabo. Em especial, o Novo Testamento sublinha veementemente a autoridade de Cristo sobre os demônios, que Ele expulsa “pelo dedo de Deus”. (Lc 11,20). Ao olharmos para o mundo contemporâneo, nós percebemos que nele a consciência da existência do demônio se debilitou de maneira notável por causa de uma difundida indiferença religiosa, ou da rejeição de muitos pontos da fé que se referem à Revelação divina. Agindo assim, aos poucos, muitas pessoas optam pelo reino das trevas em detrimento do reino da graça. Em função disso, com muita frequência, a noção de pecado e a responsabilidade humana são ofuscadas pela pretensão de uma liberdade irrestrita, que se sente ameaçada por uma fiel observância aos Mandamentos da Lei de Deus.

Com os olhos da fé em perfeito estado, livres da miopia e do estigmatismo causados pelos programas televisivos, nós podemos distinguir a marca do demônio na maneira com que se explora o mercado das drogas, da pornografia e da promiscuidade. É infernal o modo como a mídia, por meio de novelas, seriados, reality shows e miniséries, tenta persuadir as pessoas das mais diversas idades que o adultério, o aborto, a corrupção e o homossexualismo não são pecados. É infernal todo programa televisivo que nega as verdades da fé e apresenta o mal e os erros como coisas boas que devem ser compreendidas e respeitadas. Por conseguinte, é dever de todo fiel cristão perceber que há algo de diabólico em tudo isso e, por isso, temos que denunciar as obras das trevas, anunciando que Cristo veio precisamente para libertar cada um de nós do pecado e da influência do diabo.      

O demônio existe e sua ação é real; ele é o tentador por excelência. De uma forma ou de outra, ele exerce o seu domínio sobre todos aqueles que se entregam voluntariamente à sua ação, objetivando fazer da vida unicamente uma oportunidade de se entregar sem reservas ao prazer, à falsidade e ao interesse privado. Quando enxergamos com lucidez  os vórtices da história humana nestes vinte e um séculos da era cristã, notamos que em inúmeras guerras, conflitos e atentados terroristas há evidências maléficas das forças satânicas que se esforçam por destruir as relações de solidariedade, de fraternidade e de paz entre os homens. De um certo modo, “toda a história humana é atravessada por uma luta tremenda contra as potências das trevas”. (Gaudium et Spes, nº 37). Hoje, como nos anos passados, o demônio continua disseminando sua ação enganadora, a ambiguidade que confunde os seres humanos, espalhando o medo, a mentira, a insegurança, os novos dramas e a violência. A violência está embebida na mentira e tem necessidade da insegurança, da ambiguidade e do medo para justificar insanas atitudes, totalmente contrárias à natureza humana e, aliás, com frequência, contraditórias entre si. Mas, não podemos nos esquecer que “se portarmos na mente e no coração a Palavra de Deus, se esta adentra em nossa vida, se tivermos confiança em Deus, podemos refutar todo o tipo de trapaça do tentador”. (Papa Bento XVI, “Audiência em 21 de fevereiro de 2010”).

Diante deste panorama, é atualíssimo o conselho de São Pedro, que nos diz: “Sede sóbrios e vigilantes. O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé”. (1 Pd 5,8-9). Todos os dias, a cada novo segundo da hora, nós temos que permanecer vigilantes para reagir com esmerada prontidão a qualquer ataque do príncipe do mal. O próprio Cristo, cuja missão redentora tem princípio com a vitória sobre as tentações do demônio, indica-nos os meios de perseverança na fé, que nós temos que concretizar neste combate cotidiano das sugestões do mal: a oração, a mortificação e o jejum, a participação nos sacramentos, a prática das boas obras e a escuta e vivência da Boa Nova da Salvação. É significativo observar que é justamente nesta peleja diária contra o demônio e suas obras que cada um de nós nutre sua vida espiritual e revigora sua vivência da graça da redenção e o seu amor e doação ao nosso Salvador.

Vamos concluir, recordando as sábias palavras do Cura D’Ars, que nos ensina que “o demônio é um grande cão acorrentado que arremete, que faz muito barulho, mas que só morde os que se aproximam dele em demasia”. (Sermão sobre as tentações). Não sejamos néscios que vivem subestimando o poder do mal e das trevas, aproximando-nos, perigosamente, da antiga serpente. Sejamos sim, cada vez mais, santos e perfeitos na caridade, percebendo e denunciando as enganadoras máscaras do adversário de Deus. São Miguel Arcanjo, príncipe das milícias celestes, ajuda-nos no bom combate em prol da fé, para que possamos resistir, hoje e sempre, às contínuas ciladas do mal. Assim seja! Amém!

Aloísio Parreiras
(Membro da Comissão de Liturgia do XVI CEN)