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23/01/2010

O Apostolado do Sofrimento

 

 

Nobre é o trabalho desenvolvido pelos médicos, pelos enfermeiros e pelos demais profissionais da área de saúde. Mais nobre ainda é o trabalho apostólico desenvolvido pelo fiel cristão que contempla nos hospitais e nas clínicas um amplo campo de apostolado. Adentramos pelo apostolado do sofrimento quando visitamos um doente. Visitar os enfermos é uma das obras de misericórdia que nós somos chamados a realizar inúmeras vezes no decorrer de nossas vidas. Tendo ou não parentes internados nos hospitais ou compadecendo em nossos lares, cada um de nós tem o grato dever de ser um mediador de humanização e de humanidade junto aos doentes. Estar junto aos enfermos, compartilhar as suas dores e os seus sofrimentos é um ousado apostolado que requer fortes e fiéis missionários. Sim, acompanhar os doentes é uma grata missão que exige de nós abnegação, sacrifício, entrega e plena confiança no Senhor. Neste sentido, todas as vezes que, mesmo sem querer, percebemos que nos hospitais ainda há seres humanos esquecidos pelos parentes e pelos amigos, Cristo sussurra suavemente em nossos ouvidos: “Estive doente e não me visitastes!” (Mt 25,43). 

Visitar um doente, permanecer atento às suas reclamações, ouvir pacientemente pela enésima vez a descrição de suas dores é um gesto de solidariedade fraterna. Sendo solidários com os doentes, demonstramos que é justo lutar contra a doença, é justo lutar contra as dores, é justo lutar contra o sofrimento, pois a saúde é um especialíssimo dom que Deus nos concede. Sendo solidários com os doentes, testemunhamos que, no sofrimento, abre-se para o ser humano um belo manancial de santidade. Cabe então, a todos nós, declarar aos enfermos o sentido salvífico do sofrimento.  A cada pessoa que sofre temos que dizer: se há dores em seu corpo, deposite suas dores no coração de Cristo que foi transpassado pela lança em sinal de amor por você. Se há chagas em suas mãos, sinta-se tocado pelas mãos chagadas do nosso Redentor. Se sua cabeça parece que vai explodir diante de tantos tormentos, contemple em silêncio o precioso Sangue que escorre pela cabeça de Jesus, ao ser coroado de espinhos em prol da sua salvação e, ao descobrir que o seu sofrimento não é vazio, infecundo, brade com incontida alegria que Jesus é a sua força!

Mesmo com as limitações advindas do sofrimento, o doente tem que aprender  que a única verdade capaz de amenizar as dores é a fé, a nossa união com o Senhor. A união do enfermo com o Senhor o faz ter a certeza de que a sua oração é poderosa, misteriosa e revestida de muitas graças. Ao percorrer o caminho da identificação com o Servo sofredor, todo doente percebe que, em suas dores e em suas limitações, há um imenso reservatório de combustível espiritual que o leva a detectar que há inúmeras razões para alimentar cotidianamente a sua vida de oração. Como é gratificante poder ouvir um enfermo, quase sem voz, salmodiar: “Bendito seja o Senhor Deus, que não me privou da oração e de Sua misericórdia”. (Sl 65, 20). É reconfortante saber apreciar a confiança  do doente que nos consola, afirmando: “Guardarei a minha fé, mesmo dizendo: É demais o sofrimento em minha vida!” (Sl 116). E como é belo identificar em um enfermo um missionário da fé que, mesmo limitado fisicamente, sabe utilizar os poucos recursos que possui para proferir aos outros companheiros doentes: Se a cruz da vida o oprime, esforce-se para santificá-la com a firme esperança do céu.

Ao realizar o apostolado do sofrimento, renovamos nossa solicitude para com o próximo. Diante dos leitos dos enfermos, diagnosticamos que há remédio para o sofrimento. Esse eficaz remédio não é encontrado nas farmácias ou em drogarias especializadas, mas é encontrado nas almas e nos corações de todos aqueles não se cansam de abrir mão de seu tempo e de seus projetos pessoais para acompanhar, bem de perto, o nosso Redentor, que nos visita na pessoa do enfermo que está suplicando a nossa atenção, a nossa cordialidade, a nossa caridade e o nosso apreço. Como é bom poder ouvir um doente nos dizer: Deus vos pague! Melhor ainda é poder dizer ao doente: Muito obrigado, por me ensinar, na adversidade, a ser fiel ao Senhor!

Antes de concluir, quero utilizar as palavras de São Josemaría Escrivá para dizer aos doentes e aos seus familiares: “Os que fogem covardemente do sofrimento têm matéria de meditação ao verem o entusiasmo com que outras almas abraçam a dor. Não são poucos os homens e as mulheres que sabem padecer cristãmente. Sigamos o seu exemplo”. (Sulco nº 236). Cristo conta conosco no apostolado do sofrimento para que possamos, junto d’Ele, realizar a missão atual e heróica de ser próximo a todo aquele que sofre. Bem-aventurado é todo aquele que professa aos doentes que, mesmo na convalescença, é necessário procurar as graças de Deus, por intermédio de Cristo e pela mediação de Maria.  Maria, nossa Mãe, Saúde dos enfermos, fazei, com vossa poderosa intercessão, que sejamos caridosos e misericordiosos com os nossos irmãos enfermos. Assim seja! Amém!


 Aloísio  Parreiras
(Membro da Comissão de Liturgia do XVI CEN)